Duas famílias sobrevivem na selva de Mynamar antes de se abrigarem em uma igreja

Fugindo da violência em sua aldeia natal, duas famílias do estado Kachin predominantemente cristão no norte de Mianmar sobreviveram por dois meses em uma floresta e tiveram que atravessar um terreno repleto de minas terrestres antes que pudessem finalmente encontrar refúgio em uma igreja batista.

Com o aumento da violência contra o povo Kachin e sua comunidade cristã nos últimos meses, assim como o choque entre o governo e o Exército Independente de Kachin aumentaram, cerca de 130.000 fugiram de suas casas e agora vivem em igrejas em todo o Estado.

Em abril, foi relatado que mais de 2.000 pessoas do município de Tanai foram forçadas a fugir de suas casas e ficaram presas na floresta próxima quando os combates irromperam nas áreas ao redor das aldeias de Sut Yang, Sut Ya e Awng Lawt.

Presos na floresta

A Burma News International informou na semana passada que nove pessoas que se  deslocaram do vilarejo de Awng Lawt chegaram a um campo de desabrigados na capital de Kachin, Myitkyina, no final de junho, depois de se esconderem na floresta por dois meses.

Entre os membros do grupo estavam pessoas de duas famílias. A mais velha era uma mulher de 70 anos e as mais novas eram duas crianças de 8 anos de idade.

Daw Labya Htu San, uma das pessoas do grupo, disse à agência de notícias independente que demorou tanto tempo para o grupo chegar ao campo de deslocamentos da Igreja Batista Jaw Masat Kachin porque eles não estavam familiarizados com as estradas e encontraram tropas militares a caminho de Mianmar.

"Atravessamos minas terrestres"

"Corremos na direção da montanha [Maji Bum], mas encontramos um grupo de deslocados que estavam descendo a montanha em Sani Chaungzone. Passamos uma semana no riacho In Sant com eles depois que o exército do governo chegou nessa direção". Daw disse. "Tivemos que atravessar as minas terrestres como se estivéssemos plantando arrozais na estrada, embora estivéssemos com medo".

Daw explicou que eles também tiveram que lidar com as inundações e as sanguessugas que ficaram presas em seus corpos. "Nós enfrentamos muitas dificuldades", disse ela. "Quando soubemos que as tropas do exército deixaram o Maji Bum, voltamos para lá”.

Enquanto o grupo estava lá, Tinghpang Naw Ja, um membro do grupo que tinha cerca de 35 anos, foi preso no dia 20 de maio, enquanto voltava de Ka Phan Creek. O grupo foi até a aldeia para procurá-lo, mas não teve sorte. Eles não ouviram mais falar de Tinghpang desde que ele foi detido. "Não ouvimos nenhuma notícia sobre ele, então realizamos uma oração por ele", disse Daw.

As nove pessoas se uniram a outros milhares de pessoas deslocadas de Kachin, das quais 95% são cristãs, refugiando-se nas Igrejas Batistas Kachin.

Igrejas abrem as portas

De acordo com o pastor texano Bob Roberts, que recentemente viajou para Kachin, quase todas as igrejas batistas que ainda estão em pé abrigam centenas de milhares de pessoas deslocadas.

"A Convenção Batista de Kachin está tentando ajudá-los", disse Roberts, fundador da Northwood Church em Keller, Texas, ao The Christian Post na segunda-feira. "Eu visitei algumas igrejas que tem uma pequena capela que abriga algumas centenas de pessoas, talvez 300 no máximo. Essas capelas são construídas com bambu, e estão abrigando muitas pessoas."

A Voz Democrática da Birmânia  relata que mais de seis mil pessoas Kachin fugiram de suas casas desde abril. De acordo com a Convenção Batista Kachin, existem mais de 60 campos de deslocados internos no Estado.

No entanto, o governo de Mianmar está aparentemente tentando fechar os  campos de deslocados internos em Kachin e outros estados em conflito, como o estado de Rakhine, onde as forças armadas de Mianmar cometeram atos de genocídio  contra o povo muçulmano Rohingya.

Apelo por um acordo de paz

O presidente da Convenção Batista de Kachin, Hkalam Samson, disse ao DVB que o governo de Mianmar deveria priorizar acordos de cessar fogo em vez de fechar os campos de refugiados que estão ajudando as pessoas sem lugar para ir. Especialmente em Kachin, os deslocados não têm a opção de buscar refúgio fora do país, uma vez que as nações fronteiriças da Índia e da China não permitirão que entrem em seus países.

"No Estado de Rakhine as pessoas podem voltar. Mas o povo Kachin e Shan não podem voltar para suas casas", disse Samson. "Não há paz, o acordo de cessar fogo deveria ser uma prioridade."

Conflitos em Kachin não são novidades, já que os confrontos entre os rebeldes Kachin e os militares de Mianmar vêm sendo interrompidos há décadas. Roberts disse ao CP que nos últimos sete anos, cerca de 450 aldeias Kachin foram destruídas.

Roberts disse que está preocupado com os acontecimentos do último ano e meio. Nos últimos 18 meses 60 igrejas Kachin foram bombardeadas e cerca de 20 delas foram substituídas por centros budistas.

 Além disso, houve numerosos relatos de violência e inúmeras vidas inocentes foram perdidas. No ano passado, conta Roberts, que houve mais de 600 encontros violentos com jatos e helicópteros no estado de Kachin.

"Passei algum tempo conversando com um homem que estava com o filho cuidando de seu gado no campo e esses helicópteros vieram e começaram a atirar e mataram seu filho e atiraram em seu joelho", contou Roberts. "Ele teve que ir depressa enterrar seu filho e depois deixar a aldeia."
 
Fonte: The Christian Post

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