Grupos islâmicos protestam contra absolvição de cristã no Paquistão

Grupos islâmicos paquistaneses voltaram a protestar nesta quinta-feira, pelo segundo dia consecutivo, contra a absolvição da cristã Asia Bibi pela Suprema Corte. Na quarta-feira (31), a condenação dela à morte foi anulada e a corte ordenou sua libertação.

Asia Bibi, que tinha sido condenada em 2010 sob acusação de insultar o profeta Maomé, terá que deixar o país por questões de segurança, informaram familiares e seu advogado.

Integrantes do partido radical Tehreek-e-Labbaik Pakistan (TLP) continuaram fechando as estradas em cidades como Lahore, Carachi e Islamabad, apesar da advertência feita pelo primeiro-ministro, Imran Khan, que não entrem em confronto com o Estado.

Cerca de 250 manifestantes fecharam uma das principais entradas para a capital, na via que une Islamabad com Rawalpindi, disse à Efe o porta-voz da polícia da capital, Abdul Rehman.

Ele afirmou que os manifestantes, que queimaram pneus, fecharam várias vias da cidade e estradas que unem com outros pontos do país.

Radicais querem condenação

Em Lahore, aproximadamente 600 pessoas se reuniram em frente à assembleia provincial de Punjab e protestaram em outros 15 pontos da cidade, declarou à Efe o porta-voz da polícia, Shafique Hussain. Não houve confronto com as forças de segurança.

Em Punjab, que abriga metade dos 207 milhões de paquistaneses, os colégios e universidades estão fechados nesta quinta, da mesma forma que as escolas particulares nas províncias de Sindh e Khyber Pakhtunkhwa. Os protestos começaram quase imediatamente após a decisão da Suprema Corte, na quarta-feira.

Líderes do Tehreek-e-Labbaik Pakistan, partido que inclui na sua agenda a defesa da polêmica lei da blasfêmia, pediram a morte dos três juízes que absolveram Asia.

Libertação pode levar dias

Asia Bibi, mãe de cinco filhos, foi denunciada em 2009 por vizinhas que disseram ela insultou o islã durante uma discussão em Punjab e foi condenada à morte em 2010 por blasfêmia. Ela passou oito anos em isolamento, de acordo com a BBC.

Nesta quinta, o advogado Saif ul Malook afirmou que Asia ainda não deixou a prisão de Multam e que o processo para a soltura demora vários dias. Ele ainda não se sabe a qual país ela poderia pedir asilo político.

O próprio advogado teme por sua vida, apesar de contar com a proteção de dois guarda-costas. "Não me arrependo de ter representado Asia, mas estou assustado", ressaltou Malook à Efe.

Batalha jurídica

A cristã perdeu o recurso apresentado à Suprema Corte de Lahore, capital de Punjab, em 2014. No ano seguinte, o Supremo paralisou a execução após concordar em estudar sua apelação, mas a primeira audiência, prevista para 2016, foi adiada após desafio de um dos juízes.

A Suprema Corte do Paquistão estudou o recurso da sentença de morte de Asia em 8 de outubro e reservou o veredicto, observando que havia contradições nas declarações das testemunhas.

Indignação e mortes

O caso de Asia Bibi provocou indignação internacional, mas no Paquistão tornou-se em uma causa para os grupos e partidos islâmicos e levou a pelo menos dois assassinatos, segundo a agência Efe.

Um dos assassinatos foi do ex-governador de Punjab, Salman Tasir, que aconteceu em 2011. Depois de defender publicamente Asia Bibi, ele foi morto por um de seus guarda-costas, Mumtaz Qadri. O guarda-costas foi executado em 2016 e enterrado depois como um herói.

A dura lei contra a blasfêmia paquistanesa foi estabelecida na época colonial britânica para evitar confrontos religiosos, mas na década de 1980 várias reformas promovidas pelo ditador Muhammad Zia-ul-Haq favoreceram o abuso desta norma.

Desde então foram registradas cerca de mil acusações por blasfêmia, um crime que no Paquistão pode acarretar até a pena capital, embora nenhum condenado tenha sido executado até agora.



Fonte G1

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