Pastor é assassinado por militares em Camarões

Um pastor foi baleado e morto por forças militares em Camarões no mês passado, em meio à violência em curso nas regiões anglófonas do país. O pastor Keloh Elijah, um graduado do Seminário Teológico Batista de Camarões em Ndu, foi morto durante uma invasão militar na área de Mfumte, onde também outras pessoas foram mortas, disse uma fonte com conhecimento da situação.

Não está claro no momento quantos foram mortos durante a invasão em Mfumte. A morte do pastor ocorre quando o governo reprimiu ativistas separatistas nas comunidades de língua inglesa nas partes noroeste e sudoeste do país, áreas que grupos militantes se autoproclamavam como República da Ambazônia.

Segundo Efi Tembon, um líder do ministério ativo nos esforços de tradução da Bíblia que está trabalhando para ajudar a família do pastor, Elias serviu na Igreja Batista de Bitu até o dia 6 de março e começou a ministrar na Igreja Batista Bereana em Mfumte em 30 de março. No dia 1º de abril, Elijah partiu para uma viagem missionária a uma aldeia próxima. Ele retornou cerca de uma semana depois, no dia 7 de abril, dia em que as forças militares supostamente invadiram a área.

Atos terroristas

Elias teria voltado para casa para rever sua esposa e seis filhos. No dia seguinte ele então saiu para ir à igreja e por volta das 08h30min da manhã foram ouvidos três tiros. "O pastor Keloh foi baleado pelos militares de acordo com testemunhas oculares", explicou Tembon em um email. “Muitas outras pessoas foram mortas na área. Os militares têm procurado e lotado casas e incendiado várias casas”.

Por causa disso, a comunidade local foi forçada a “fugir para a floresta”, acrescentou ele. “Algumas pessoas idosas que não podiam fugir foram deixadas para trás. Muitos dos tradutores da Bíblia fugiram para a floresta. A maioria deles já cruzou a Nigéria”. Manifestantes separatistas começaram a protestar pela autonomia em 2016, pois não se sentiam representados pelo governo central majoritariamente de língua francesa. A violência aumentou nas comunidades anglófonas em 2017, isso ocasionou o deslocamento de centenas de milhares de pessoas.

A violência também causou um atraso em até 38 projetos de tradução da Bíblia em Camarões. Tembon disse que a esposa e os filhos de Elijah ainda estão na floresta. Tembon dirige um ministério chamado Rede Oásis para a Transformação da Comunidade, que está ajudando a família do pastor a cruzar a fronteira com a Nigéria.

"O governo de Camarões, um parceiro com EUA, Reino Unido e França na luta contra o grupo terrorista Boko Haram, agiu de forma semelhante ao ISIS e ao Boko Haram, se não pior", afirmou Oasis Network em um relatório sobre o "genocídio em curso". Camarões. "O governo de Camarões usou seus militares para realizar atos terroristas, genocídio e crimes contra a humanidade em Camarões do Sul".

Crimes hediondos

Tais crimes, segundo a rede, incluem decapitações, tortura, prisões em massa, violência sexual, execuções públicas, queima de casas e aldeias e também a queima de pessoas. A rede também acusou o governo de deliberadamente armar a minoria Mbororo (um subgrupo de Fulani) para “ir contra a população local”. Até 215 aldeias e cidades foram afetadas pelo conflito nas regiões, de acordo com Tembon.

Um relatório de 15 de abril do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários explica que cerca de 4 milhões de pessoas são afetadas pelo conflito em Camarões, com mais de 1,3 milhões de necessitados. 

"A violência contra civis nas regiões Noroeste e Sudoeste continua a ter um sério impacto sobre os meios de subsistência e gerar necessidades humanitárias agudas", diz o relatório. "A sessão chuvosa está tornando o acesso a bens e serviços ainda mais difícil para os deslocados internos e a população local, para os deslocados internos que estão escondidos na floresta".  

No ano passado, estima-se que pelo menos 2.000 pessoas foram mortas no conflito, com mais de 200.000 pessoas sendo deslocadas em meio a relatos de forças militares transformando igrejas em quartéis militares. "O número de pessoas deslocadas continua aumentando e os militares invadem as aldeias todos os dias", disse Tembon. 

Sem punição

De acordo com ele, estimativas atualizadas sugerem que até 2.015 vilas e cidades foram queimadas ou destruídas quando o governo "aumentou as queimadas nos últimos meses". "A área de Mfumte tem algumas aldeias e todas foram afetadas", explicou Tembon. 

Em abril, a Human Rights Watch noticiou sobre um ataque militar mortal na vila de Meluf, na região noroeste, ocorrido três dias antes da invasão em Mfumte. Cinco homens civis, incluindo um com deficiência mental, teriam morrido. Três corpos mutilados foram descobertos mais tarde, um dos quais foi decapitado.  Um morador relatou que soldados invadiram sua casa, mataram seu tio e atiraram em sua tia. 

"Com base em entrevistas com 10 testemunhas e residentes e revisão de fontes de vídeo e fotografia, a Human Rights Watch descobriu que as vítimas foram executadas ou baleadas quando tentavam fugir quando as forças de segurança invadiram sua vizinhança, localizada perto de um acampamento separatista armado".

Em novembro passado, o bispo Andrew Nkea descreveu em uma entrevista na mídia um ataque a uma igreja por soldados no sudoeste que matou o padre Cosmas Omboto Ondari. Ele descreveu outros casos em que civis foram mortos na frente de igrejas.  "Estamos vendo mortes todos os dias e ninguém está sendo acusado", disse ele. 


Fonte: The Christian Post

Compartilhe